Zé-de-baixo encontra (e escapa) a morte.

Começo esse blog para escrever as histórias por trás das imagens. Como diz um professor meu: às vezes o que acontece por trás da câmera é mais interessante do que o que acontece na frente dela.

Independentemente se estamos falando de cinema ou de fotografia, de fato, muitas vezes isso é verdade. Principalmente quando retratado e circunstâncias são tão ricos a ponto de simplesmente serem o que são.

Se por um lado há, em muitos dos lugares, uma escassez de recursos de direitos humanos como: água, saneamento básico, comida e etc.; por outro, a riqueza está justamente na dignidade e grandeza que compõe muitos desses personagens – e mesmo lugares – grandeza essa que parece inextinguível e inabalável. Grandeza que, talvez, nem mesmo a morte possa por fim.

Hoje: Zé-de-baixo.

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Numa das andanças pelo Vale do Jequitinhonha, resolvi fazer a pé a rota que liga São Gonçalo do Rio das Pedras à Capivari, uma comunidade em que estávamos trabalhando nos dias anteriores. Claro, a paisagem do Vale do Jequitinhonha por si só, já vale a visita. Nessas paragens há inclusive resquícios de pinturas rupestres em pedras e cavernas. Um menino me acompanhava para guiar o caminho.

Os 8 km que ligam um lugar ao outro é cheio de subida, descida, montanhas e uma vegetação belíssima, como é quase de praxe em Minas Gerais. Mas a terra rica em minério, não é tão boa para o plantio. A população do Vale do Jequitinhonha sofre há anos com algo que infelizmente é muito comum no nosso território: a negligência do poder público em estender-lhes a mão. As taxas de IDH são muito baixas nessa região e a impossibilidade de um plantio mais diversificado completa o panorama de escassez.

Fora as pinturas rupestres, o caminho Jequitinhonha adentro guardava poucas marcas de presença humana: um boi aqui, outro acolá; uma casa ou outra feita de adobe (tijolos de barro) já despedaçada pelo tempo.

Nesse contexto deparei-me com Maria, que levava uma trouxa na cabeça. Estava indo lavar roupa. Caminhava só, acompanhada apenas de uma melodia que cantarolava. Parou para um “dedo de prosa”. Contou-me o que estava indo fazer, perguntou-me de onde eu era e explicou-me mais ou menos onde morava com o marido, José. Mais conhecido como Zé-de-baixo. Não confundir com o Zé-de-cima, compadre viúvo do casal que, obviamente, morava numa casa mais para cima da deles. Fotografei-a, nos despedimos e ela seguiu cantarolando.

Nos dias em que estivemos por lá, havia chovido muito. Curiosamente, pela quantidade de minérios e cristais, as tempestades vinham acompanhadas de muita descarga elétrica. Nesse dia porém, o sol brilhava forte entre algumas nuvens. A casa de Maria e Zé-de-baixo era no caminho para o vilarejo. Quando chegamos por lá, três homens conversavam animadamente: Zé-debaixo, Zé-de cima e Antônio. Os três riam entre si e zombavam de Zé-de-baixo. Com a camisa aberta e ensopada, Zé colocava os arreios de seu cavalo para secar ao sol, pendurando-os na cerca de arame farpado. Eles cumprimentaram o menino que me levava:

ZÉ-DE-BAIXO

Dia.

MENINO

Dia. Esse moço aqui que tava trabalhando lá em

Capivari com aquele pessoal.

ANTÔNIO

Ah, dia moço.

EU

Bom dia. Tudo bem?

ZÉ-DE-CIMA

Agora tá.

Eles riem e olham para Zé-de-baixo. Ele dá um sorriso e eu percebo que está um pouco ofegante.

EU

Ahh, e por que só agora?

ZÉ-DE-CIMA

Vai Zé, conta pra eles.

Zé-de-baixo dá uma risada, quase desacreditando no que lhe ocorreu:

ZÉ-DE-BAIXO

Fio, quase que eu morro...

Zé me contou que depois do “aguaceiro todo” ele saiu pela manhã a cavalo para cuidar de sua “rocinha de mio”. Mas quando foi cruzar um rio que ele sempre cruza, montado em seu cavalo, não se deu conta de como a água estava puxando e de quanto o rio tinha subido. O cavalo começou a ser puxado pela correnteza e começou a afogar-se. Quase que só com as narinas para fora do rio e engolindo água, o cavalo lutou para não afundar, e Zé, que não sabia nadar, para ficar em cima do cavalo. Por sorte, e talvez porque não fosse hora de Zé despedir-se do Vale, o cavalo conseguiu recuar e colocar as patas em terra firme para sair do rio. Estavam salvos.

Havíamos chegado um pouco antes do retorno de Zé. Ele contou-nos essa história enquanto colocava fumo em seu cachimbo. Ao terminar a narrativa, ele deu um trago no cachimbo e relaxou os ombros. Estava vivo. Contei que havíamos encontrado sua mulher, Maria, pelo caminho. Ela havia saído de casa junto com Zé, por pouco, não pela última vez.

Alguns anos depois voltei para o Jequitinhonha. Passei pela casa de Zé-de-baixo.

Estavam os dois em casa: Zé e Maria. Entreguei-lhes as fotos. Zé abriu um sorriso. A foto fora apenas um detalhe para um dia que Zé, pareceu-me, jamais se esqueceria.


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